Para conseguir gravar seu primeiro álbum, a banda capitaneada por Lia Metcalfe sofreu mudanças substanciais: saiu o baterista original Chrissy Moore e entraram o guitarrista Callum Thompson e o baterista Paul Crilly . Ainda por cima, as gravações de Reeling aconteceram a duras penas durante múltiplos lockdowns
Após lançarem dois EPs de sucesso (como visto nos posts anteriores), os integrantes do The Mysterines tiveram que enfrentar obstáculos para gravar seu álbum de estreia nomeado Reeling. Eles encontraram na produtora australiana Catherine Marks o apoio ideal para guiar sua evolução. De fato, Catherine é notoriamente competente e trabalhou com artistas como Alanis Morissette, Boygenius, Foals, Frank Carter & The Rattlesnakes, The Amazons, The Killers e Wolf Alice, entre outros. Marks orientou o agora quarteto formado por Lia Metcalfe (vocal e guitarra), Callum Thompson (guitarra), George Favager (baixo) e Paul Crilly (bateria). O álbum foi registrado em três intensas temporadas no Assault & Battery Studios, em Londres, entre julho de 2020 e março de 2021.
Impossibilitados de fazer apresentações ao vivo, Lia Metcalfe e cia canalizaram toda as energias em Reeling. As sessões aconteceram em pequenas janelas com duração de uma semana, sempre sob a pressão de prazos apertados e o isolamento da pandemia. Lia lembra como o processo foi intenso, com a banda completamente absorvida pelo trabalho, sem qualquer distração.
Catherine Marks encorajou a banda a desenvolver suas ideias, interferindo apenas quando necessário para equilibrar momentos mais suaves com a energia bruta característica do grupo. O novo baterista Paul Crilly explicou que Marks foi super gente fina, amigável e humilde e conquistou a confiança do conjunto. Por isso, o álbum possibilitou que o The Mysterines preservasse sua essência de rock and roll básico, evitando quaisquer sonoridades artificiais.
Reeling [LP]

Disco de vinil da banda The Mysterines
Aclamado pela crítica, o primeiro álbum da banda de rock alternativo liderada por Lia Metcalfe foi produzido pela renomada Catherine Marks. Edição em vinil do disco do The Mysterines que não pode faltar na coleção de quem aprecia o alt rock.
Reeling
Lançado no dia 11 de março de 2022, o álbum Reeling foi amplamente aclamado pela crítica e pelos fãs. Como se montar o primeiro álbum não fosse difícil o suficiente, os membros originais Metcalfe Favager também encontraram tempo para renovar a formação (as adições de Callum Thompson na guitarra e Paul Crilly na bateria), assim como aprimorar sua sonoridade. Vamos às faixas:
A canção que abre o disco é a muito bem construída, carregada com boas rimas e entraga uma mensagem bem legal, afinal por mais paradoxal que isso seja, quando se atinge a maturidade percebe-se que a vida não é um mar de rosas, mas viver é a melhor coisa do mundo (pelo menos pra quem tem boa saúde mental).“Life’s a Bitch (But I Like it So Much)” é um alt rock empolgante com ótimo trabalho da vocalista e dos outros músicos, especialmente do novo guitarrista .
Composta apenas alguns dias antes da gravação, a canção “Hung Up” traz uma letra poética e bem elaborada, como de hábito. Nela, a letrista Lia expressa um misto de atração e repulsa causado por uma relação superficial com um alguém que parece não estar nem aí, por isso, ela não vai mergulhar de cabeça no relacionamento, apesar da tentação. Musicalmente, mantém o alto nível e evidencia que a banda, que agora é um quarteto, evolui a cada trabalho.
A ótima faixa-título traz a letra que aborda a ótica feminina sobre descobertas sexuais na juventude e perda da virgindade, numa época semi-niilista e de pouca (ou quase nenhuma) perspetiva de comprometimento, bem interessante. A voz rouca encaixa bem na melodia e os músicos estão afiadíssimos, em especial o guitarrista.
Já a música “Old Friends Die Hard” prova que Lia é uma ótima letrista e conseguiu até encaixar na letra o nome do assassino de J.F.K. É uma mistura humor negro e crítica, tangenciando temas como persuasão e busca pelo poder (não só político, talvez até dentro do showbiz), tudo isso com uma levada de blues rock, que é faz a base para um bom solo de guitarra.
O carro-chefe do álbum é “Dangerous”, que traz tem videoclipe com uma fotografia noir de muito bom gosto. As rimas são excelentes e construídas com palavras muito bem escolhidas, explicando que viver é perigoso. Estruturalmente, trata-se de uma canção tão simples quanto perfeita, em se tratando do universo do rock and roll ou do pop rock. Ela é simplesmente impecável em seus três acordes (assim como o são “Johnny B. Goode”, de Chuck Berry ou “Rock and Roll”, do Led Zeppelin).
“On the Run” é muito bem gravada e tem as digitais da produtora. A letra é bem simples, mas com conteúdo interessante: problemas, traumas ou arrependimentos que atormentam a vida dos mortais e dos quais não se pode escapar varrendo-os para debaixo de um tapeta. O ponto forte está na voz que embala a melodia junto com slide guitar na medida.
A curtinha “Under Your Skin” é uma canção com pouco mais de 2 minutos que fala de dor ritmo arrastado, como se alguém arrastasse correntes. Parece ser um daqueles casos em que incluem faixas apenas para completar um álbum.
“The Bad Thing” tem uma letra existencialista que fala sobre as consequências das decisões muitas vezes equivocadas que tomamos. Musicalmente, começa num ritmo arrastado como a canção anterior e vai acelerando até lembrar um hard rock do Led Zeppelin com o guitarrista costurando tudo como bons solos e ótimos power chords. A produção com delay em cima da voz de Lia está perfeita.
A letra de da sinistra “In My Head” é formatada com rimas legais e aborda fantasmas do passado, como alguém ou algum relacionamento tóxico, assombrando uma pessoa. Um rock básico, direto, enxuto e bem executado pelo quarteto.
Por sua vez, “Means to Bleed” fala de sofrimento e serve como um alerta para jovens que insistem em comportamentos inconsequentes ou auto destrutivos, falando do encontro inevitável que todos teremos com a morte. A melodia e a voz de Lia combinam muito bem com essa faixa carregada de tensão.
Com uma pegada mais comercial, “All these Things” viraria até o nome de um EP (contendo a faixa e algumas canções ao vivo que seria lançado alguns meses após o álbum Reeling). A letra fala de temas como decisões importantes, culpa e não sentir arrependimento. É uma das melhores canções do The Mysterines, tem bom trabalho de guitarra e está mais uma vez escorada no excelente desempenho vocal da líder do grupo.
Gravada somente com voz e violão, a melancólica “Still Call You Home” está construída em cima de algumas boas rimas e uma letra romântica que fala de dor causada pelo fim de um relacionamento. Um folk rock que certamente foi sugerido pela experiente produtora buscando explorar a linda voz rouca de Metcalfe e que ajuda a temperar o ótimo Reeling
A letra de “The Confession Song” versa sobre um tema comum na juventude, descrevendo uma mulher que lamenta antigos relacionamentos vazios e inconsequentes motivados unicamente pela lascívia, mas que, ao longo do tempo, causaram amargor e arrependimento. A melodia está de acordo com a letra e remete o ouvinte a um confessionário de uma igreja.

The Mysterines Lia Metcalfe
A banda The Mysterines teve três formações: nasceu como um trio, foi um duo por um curto período e consolidou a formação clássica como um competente quarteto. Seu som foi aprimorado e isso se deve a vários fatores: em parte pela competência dos novos integrantes – guitarrista Callum Thompson e o baterista Paul Crilly -, em parte pela experiência de trabalhar com a produtora Catherine Marks e principalmente pelo amadurecimento da jovem líder do grupo, Lia Metcalfe.
Até o próximo post, abração!


