O homem que reinventou a guitarra no rock progressivo foi Steve Howe, guitarrista do Yes, do Asia, do GTR, do The In Crowd ,do In Bodast e do Tomorrow
Nascido em Londres, no dia 8 de abril em 1947, ele transformou o instrumento de seis cordas em algo que ninguém havia imaginado antes: uma ferramenta adequada para usar em obras de blues, jazz, flamenco, rock and roll e rock progressivo (mas sem pertencer a nenhum desses mundos por completo).
Há guitarristas que dominam um estilo. Há os que criam um estilo. E há, em raríssimas ocasiões, aqueles que fazem algo ainda mais raro: constroem uma linguagem própria tão singular que se torna imediatamente reconhecível, mas ao mesmo tempo impossível de encaixar em qualquer categoria. Stephen James William John Howe é um desses casos únicos.

Mais conhecido simplesmente como Steve Howe, ele ainda está na ativa e segue sendo uma das presenças mais originais na história da guitarra elétrica. Sua fama mundial se consolidou quando passou a integrar a formação clássica do Yes, um dos grupos mais ambiciosos e influentes do rock progressivo em todos os tempos. Mas a história de Howe começa antes disso, e vai muito além de qualquer banda.
Uma infância rodeada de sons
Crescer no pós-guerra londrino significava, entre outras coisas, conviver com a onipresença do rádio e das primeiras gravações de rock and roll vindas do Tio sam. O jovem Steve descobriu a guitarra ainda na adolescência e rapidamente percebeu que o instrumento poderia ser algo mais do que simples acompanhamento rítmico. Ele devorou tudo que chegava aos seus ouvidos: rock and roll, blues, jazz, flamenco, country e música clássica.
Mas havia algo que diferenciava Howe de outros jovens musicistas da época: ele nunca se contentava em reproduzir. Cada estilo que absorvia passava por um filtro interno, saindo do outro lado transformado, mesclado com outros elementos, enriquecido por uma curiosidade que parecia não ter fim. Gostar de blues era uma coisa. Tocar o blues de um jeito que nunca existiu antes era outra.
Em 1963, integrou a banda The Syndicats. Dois anos depois entrou para a banda The In Crowd (que mudaria o nome para Tomorrow, que lançaria o clássico da psicodelia “My White Bicycle”, gravado por Nazareth e outros artistas). No final da década de 60 esteve na banda Bodast, cuja canção “Nether Street”, mais tarde seria a base para “Starship Trooper” do Yes — uma música progressiva calcada em apenas três acordes que possibilitou solos “infinitos” extraídos da guitarra de Howe e do teclado de Rick Wakeman (mais abaixo neste texto, elencamos ainda mais bandas e colaborações).
A chegada ao Yes
Quando Steve Howe se juntou ao Yes em 1970, substituindo Peter Banks, a banda estava prestes a dar um salto qualitativo impressionante. Ao lado de Jon Anderson, Chris Squire, Bill Bruford e Tony Kaye (mais tarde substituído por Rick Wakeman), Howe ajudou a construir um som orquestral, denso e intrincado que desafiava todos os limites do que o rock poderia ser.
A guitarra de Howe, em especial sua amada Gibson ES-175, tornou-se um elemento tão distintivo do Yes quanto as harmonias vocais ou o baixo estrondoso de Squire, e levava para o rock progressivo frases melódicas longas e elaboradas, contrapontos sofisticados, mudanças de textura que podiam ir do delicado ao avassalador em questão de compassos.
Steve Howe, guitarrista do Yes
Com o Yes, Steve alcançou merecida fama internacional por causa de canções icônicas do rock progressivo como: “Close to the Edge”, “Roundabout”, “Parallels”, “Mood For a Day”, “Heart of the Sunrise”, “And You and I”, “Going For the One”, “Into the Lens”, “Siberian Khatru”, “Long Distance Runaround”, “The Revealing Science of God (Dance of the Dawn)” e “I’ve Seen All Good People”, entre outras.
Críticos e músicos frequentemente tropeçam quando tentam descrever o estilo de Steve Howe com precisão. De fato, Steve desenvolveu, ao longo de décadas, uma linguagem guitarrística absolutamente original. A maneira como ele articula notas em arpejos abertos, como constrói tensão e resolução em solos longos, como usa o silêncio como elemento estrutural…tudo isso constitui um vocabulário que não pertence a nenhuma escola específica. Ele é, em suma, uma referência obrigatória para qualquer aficionado pelo instrumento e pela originalidade que quase sempre mapeia o prog rock. Pode-se afirmar que o que define Howe é a disposição permanente para a inovação.
Steve Howe no Asia, GTR e outras bandas
Em 1986, formou com o também genial guitarrista Steve Hackett (ex-Genesis) o duo GTR, gravando dois álbuns. Dois anos depois, integrou o Anderson Bruford Wakeman Howe (ou simplesmente ABWH) — que nada mais era que uma versão do Yes sem o baixista Chris Squire. Em 1998 esteve no supergrupo Explorers Club, contribuindo na faixa “Impact 4 – Time Enough”. Em 2001, gravou junto de Oliver Wakeman o álbum The 3 Ages of Magick. Já em 2014, participou tocando koto da faixa “Moss Garden” do álbum Subterranean – New Designs on Bowie’s Berlin (2014) de seu filho Dylan Howe. Ele também tocou em dois álbuns de seu outro filho, Virgil Howe: Nexus (2017) e Lunar Mist (2022).
Howe participou de dezenas de álbuns de alguns dos melhores artistas do mundo, tais como: Rick Wakeman, Fish, Lou Reed, Johnny Harris, Propaganda, Nektar, Frankie Goes to Hollywood, Dream Theater, Bee Gees, Animal Logica e Queen. Contudo, é inegável que seus maiores êxitos fora do Yes foram com o supergupo de prog rock e pop rock Asia.
Museu da Guitarra
Fora dos palcos, Steve Howe é também um apaixonado colecionador de guitarras. Ao longo de sua carreira acumulou centenas de instrumentos, muitos históricos, outros simplesmente raros e belos. Não é por acaso que a Gibson escolheu seu nome para relançar um de seus modelos mais icônicos: o ES-175 ganhou uma versão especial batizada de “Steve Howe Signature Model”, reconhecimento máximo da indústria para um guitarrista que se tornou inseparável do instrumento.
Em diversas ocasiões, Howe revelou um sonho que diz muito sobre sua relação com a guitarra: construir um museu dedicado à guitarra. Um espaço onde a história, a lutheria, a evolução técnica e a música pudessem ser celebradas e preservadas para as gerações futuras.
Howe continua ativo à frente do Yes e segue realizando turnês e lançando material, como o single “Aurora”, de 2026. Howe, que também mantém uma prolífica carreira solo, nunca parou de gravar, explorar e experimentar.
Numa era em que algoritmos sugerem o que ouvir e a música é consumida em fragmentos de segundos, a obra de Steve Howe é um convite ao oposto: à escuta profunda, ao mergulho em estruturas complexas, ao prazer de se perder em uma sequência de acordes que parece não ter fim.
Steve Howe
Steve Howe estará na maioria das listas dos maiores guitarristas do prog rock, juntamente com feras como David Gilmour, Steve Hackett, John Petrucci e Trevor Rabin. No entanto, pode-se contar nos dedos os artistas que conseguem ser competentes em tantas frentes distintas: de canções complexas e desbravadores como as do Yes ao soft rock radiofônico do Asia. Para os músicos, Steve Howe é exemplo. Para os fãs do música boa, ele é patrimônio.

