Black Sabbath Ozzy: o nascimento do heavy metal, uma história essencial com crucifixos, perseverança, talento e superação
Qualquer um que já tentou acompanhar na guitarra ou no violão os clássicos do Black Sabbath deve ter percebido que tinha alguma coisa estranha. De fato, joias como “Paranoid” ou “Iron Man” soam meio esquisitas na afinação padrão em Mi (E) , não é? Pois bem, eles usavam uma afinação mais grave, com um peso que deixa qualquer iniciante coçando a cabeça. Mas relaxa, logo você vai entender o porquê desse lance.
A história teve início numa Birmingham cinzenta e enfumaçada dos anos 1960, quatro jovens da classe operária se juntaram sem a menor ideia de que estavam prestes a revolucionar para sempre o cenário musical mundial. O que começou como uma banda de blues rock chamada Earth logo se transformaria no Black Sabbath, literalmente inventando um gênero musical que influenciaria milhões de pessoas: o heavy metal.

A formação que mudou tudo
Essa longa e exitosa jornada começou em 1968, quando Ozzy Osbourne, então um jovem desempregado, colocou um anúncio na vitrine de uma loja de música procurando músicos para formar uma banda. Tony Iommi, guitarrista, e Bill Ward, baterista, viram esse anúncio na loja feito por Ozzy e prontamente atenderam ao chamado. A essa formação se juntou Geezer Butler no baixo, completando a formação original que definiria os rumos do rock pesado.
Inicialmente chamada The Polka Tulk Blues Band, a banda mudou depois para Earth (chegando a se apresentar com este nome), mas os integrantes descobriram que tinha outro grupo com a mesmo alcunha. Os caras perceberam que a quele blues rock eletrificado e com afinação mais baixa e grave soava como se fosse trilha sonora de filme de terror hollywoodiano. Em grande parte, a inspiração veio através da letra canção “Black Sabbath” porque Geezer Butler, principal letrista, era fascinado por magia e ocultismo naquela época, embora jamais tenha sido satanista. Surgia assim o Black Sabbath.
O acidente que definiu um som
A sonoridade única e sombria do Black Sabbath teve uma origem trágica e inesperada. Tony Iommi sofreu um acidente em uma fábrica, perdendo as pontas dos dedos médio e anelar da mão direita. Pois é, Tony Iommi antes de se tornar um dos maiores guitarristas da história trabalhava numa fábrica. Um dia, colocou a mão em uma das máquinas, que desceu e acabou cortando as pontas dos dedos fora. Por isso, ele pensou que não iria tocar nunca mais. Graças a Deus enganou-se.
Tony adaptou próteses de goma em seus dedos e baixou a afinação de seu instrumento, para que as cordas ficassem menos tensionadas. Essa adaptação por necessidade criou o som característico e pesado que se tornaria a marca registrada do Black Sabbath. As cordas mais frouxas permitiam que Iommi tocasse com menos dor, mas também produziram aquele tom grave e ameaçador que definiria o heavy metal. É importante esclarecer um mito: Tony Iommi já desmentiu informações sobre usar uma guitarra para destros ao contrário para as gravações dos primeiros álbuns.
Crucifixos contra o mal
Uma das imagens mais características do Black Sabbath eram os enormes crucifixos de metal que os membros usavam no peito. Aqueles colares tinham o propósito específico de protege-los de qualquer mal e foram sugeridos pelo pai de Ozzy, já que estariam dispostos a fazer canções sobre temáticas daquele tipo. O hábito foi prontamente aprovado pelo então empresário do grupo, Donald Arden, que adorou o visual. Portanto, fica esclarecido que os membros do grupo nunca foram satanistas, pelo contrário: alertavam contra a magia negra e o satanismo. Os crucifixos eram, na verdade, uma forma de proteção espiritual que a banda levava muito a sério.
Black Sabbath Ozzy e os álbuns que criaram o metal
A era Ozzy do Black Sabbath produziu uma sequência impressionante de álbuns que estabeleceram as bases do heavy metal:
Black Sabbath (1970)
O álbum de estreia foi gravado em apenas oito horas e lançou as bases do gênero. A faixa-título, com seu famoso acorde sombrio e atmosfera aterrorizante, anunciou ao mundo que algo completamente novo havia nascido. As letras falam de medo, bruxaria e apocalipse, como em “Black Sabbath” e “The Wizard”. Os riffs arrastados de Iommi em faixas como “N.I.B.” e “Behind the Wall of Sleep” criam um clima sombrio e pesado. É um som cru, direto, que mudou tudo.
Paranoid (1970)
Lançado apenas quatro meses após o disco de estreia, Paranoid surgiu sob pressão, mas com foco absoluto: ensaios diários e fuga das distrações de Birmingham, tudo isso impulsionado pelo medo de terem que voltar aos empregos que tinham antes. Gravado no País de Gales, o álbum é recheado com letras de crítica social e musicalidade pesada e sombria. “War Pigs” ataca os fomentadores de guerras, “Paranoid” foi criada pelo guitarrista em 25 minutos para preencher espaço (e virou hino!), enquanto “Planet Caravan” revelou a faceta mais psicodélica da banda. Com verdadeiras joias musicais “Iron Man”, “Electric Funeral” e “Hand of Doom”, o Sabbath cravou seu nome na história e ajudou a moldar também o doom metal.
Master of Reality (1971)
Considerado por muitos o mais pesado dos primeiros álbuns, apresentou a banda experimentando ainda mais com afinações baixas e atmosferas densas. “Sweet Leaf” e “Children of the Grave” têm destaque nesse trabalho. Com riffs mais graves e letras que vão de exaltação à maconha a visões sombrias de revolta e morte , o long play soa como um trovão constante. Faixas como “Into the Void” mergulham fundo na densidade sonora.
Vol. 4 (1972)
Esse ótimo álbum mistura peso e viagem, com a banda explorando novos sons sem perder a alma do metal. “Snowblind” fala abertamente sobre cocaína, enquanto “Supernaut” traz uma batida quase dançante. Ótimos riffs em músicas como “Under the Sun”, “Tomorrow’s Dream” e principalmente na obra de arte “Wheels of Confusion”. A baladinha “Changes” faz o contraponto a tanto peso. É de fato um discão que mostrou um Black Sabbath mais experimental, com “Snowblind” e “Supernaut” se tornando clássicos instantâneos.
Sabbath Bloody Sabbath (1973)
O álbum trouxe composições mais cuidadosas e uma produção mais sofisticada, sem perder o peso peculiar. As letras ficaram melhores e mais complexas, explorando temas pessoais e sociais com profundidade. Com arranjos elaborados e forte influência do rock progressivo que estava em voga, faixas como “A National Acrobat” mostram a banda amadurecendo musicalmente, enquanto a faixa-título mantém o peso clássico, mas com mais detalhes e nuances.
Sabotage (1975)
Gravado em meio a problemas legais, Sabotage refletiu de certo modo aquela tensão, resultando em algumas das composições mais intensas da banda. As letras são como desabafos cheios de fúria, refletindo a pressão que a banda vivia nos bastidores. O instrumental vem pesado e afiado, mas com toques de prog rock e momentos inesperados. “Hole in the Sky”, por exemplo, termina de forma abrupta de propósito — um corte seco que logo dá lugar à acústica e reflexiva “Don’t Start (Too Late)” (coisas dos anos 70 que jamais aconteceriam hoje).
Technical Ecstasy (1976)
O álbum Technical Ecstasy trouxe um Sabbath mais aberto a novas sonoridades, com teclados, melodias suaves e até pitadas de hard rock clássico, como nos deliciosos riffs da ótima “Dirty Women”. As letras abordam desde solidão e desilusão, como em “You Won’t Change Me”, até críticas à indústria, como em “Rock ’n’ Roll Doctor”. De certo modo, o disco Marcou o início da experimentação com diferentes estilos, incluindo a controversa “It’s Alright”, cantada por Bill Ward.
Never Say Die! (1978)
Em Never Say Die!, as letras trazem temas sobre desgaste, frustração e resistência diante das dificuldades, como em “Hard Road”, que fala sobre batalhas pessoais, e “Swinging the Chain”, que aborda opressão e rebeldia. O álbum mistura peso com experimentações, mostrando a banda tentando se reinventar em meio a tensões internas. A sonoridade varia entre riffs pesados e momentos mais melódicos, refletindo um grupo no limite, enfrentando conflitos que acabariam na saída do Ozzy.
Uma Era
A fase Ozzy Osbourne do Black Sabbath estabeleceu todos os elementos que definiriam o estilo do grupo: riffs pesados e descendentes, afinações baixas, letras sombrias explorando temas como guerra, depressão e ocultismo, enfim uma atmosfera densa e não raras vezes sinistra.
Originalmente uma banda de blues rock, o Black Sabbath chegou com pé na porta e começou a incorporar histórias de terror em suas letras, além de usar guitarras com baixa afinação. Essa transformação representou uma ruptura completa com o otimismo hippie da época, era feedback do desencanto de uma geração que via o sonho dos anos 60 desmoronar.
O Sabbath dos anos 70 foi um fenômeno que deu voz aos medos e frustrações da juventude operária. Tony Iommi transformou uma deficiência física em inovação musical, Geezer Butler canalizou sua fascinação pelo oculto em letras sensacionais, Bill Ward forneceu a base rítmica pesada que sustentava tudo e Ozzy tornou-se a voz de uma geração.
Quando Osbourne deixou a banda em 1979, encerrava-se a era mais importante e influente do Black Sabbath. Os oito álbuns gravados nesse período forjaram o heavy metal, criaram uma legião de fãs e permanecem extremamente influentes entre músicos de praticamente todos os subgêneros do metal ainda meio século depois. O começo sombrio havia plantado sementes que floresceriam em incontáveis bandas por todo o mundo.
Moral da história: muitas e muitas vezes o supra sumo da arte surge da adversidade e da coragem de explorar os lugares mais escuros da experiência humana. Continuaremos com a série sobre o Black Sabbath na próxima postagem.
Até lá. Um abraço!
Sabotage: Black Sabbath Nos Anos 70

Livro de Martin Popoff que analisa a primeira década do Black Sabbath com entrevistas inéditas dos integrantes
Obra mergulha na primeira década do Black Sabbath, analisando detalhadamente seus oito álbuns iniciais, de Black Sabbath a Never Say Die. Com entrevistas exclusivas de Osbourne, Iommi, Butler, Ward e outros, Popoff destrincha cada música, revelando como esses discos forjaram o heavy metal. É uma leitura essencial para fãs que querem entender o impacto e a criação de um gênero.


